Falta sangue correndo nas veias, suor na pele, frio na barriga, borboletas no estômago. Falta liberdade, paciência, desejos e vontades. Enquanto alguns se alimentam de faltas, eu transbordo excessos. Excessos estes que suprem um mundo: o meu.

Me deixa borrar tua solidão
quebrar o teu silêncio,
atrapalhar a tua leitura do nada,
me deixar ir.
Ir contigo, do céu ao inferno,
poético.

❝ Você me disse não contar estrelas por medo de verrugas na ponta dos dedos. eu disse não olhar fundo nos seus olhos por medo de me apaixonar por você e pelo seu caos bonito. você sorriu, como quem descobre mundos e eu te descobri. você olhou pro céu e eu olhei pra você. eu sabia que você estava contando estrelas mentalmente porque as suas mãos estavam dentro do bolso do casaco. eu quis tanto te abraçar. mas eu só te olhei. olhei pra você e pro seu boné azul engraçado. pensei que num universo paralelo talvez a lua fosse o sol e as pessoas usassem boné à noite. fazia todo o sentido. gargalhei quando você fez cócegas em mim. gargalhei alto, com a alma sorrindo. você estava tão lindo… eu quis tanto te abraçar! eu quis chorar no seu ombro porque o meu dia não havia sido tão legal assim. as pessoas são cruéis às vezes. é claro que você sabe. mas eu ri a noite inteira. eu até contei estrelas, acredita? eu contei estrelas pra não olhar nos seus olhos. eu contei estrelas naqueles cinco minutos em que a gente se calou porque eu queria te abraçar ou que você me abraçasse e dizer que eu gostava muito de você, que eu nunca gostei muito de ninguém. você sussurrou no meu ouvido que é normal se apaixonar, que um dia a gente inevitavelmente se entrega por completo a alguém. então você, descobridor, anexou-me à sua galáxia. e eu me deixei levar porque já era tarde, tarde demais pra eu me esconder ou fugir ou levantar do degrau da varanda. você finalmente me abraçou e foi como se eu tivesse esperado pelo seu abraço a vida inteira. meio precipitado… despenquei de todos os precipícios e parei na sua mão. olhei pra você meio abobalhada, meio apaixonada, meio sem porquê e beijei o canto da sua boca porque era ali que morava o seu sorriso mais lindo. você olhou pro relógio e disse que precisava trabalhar no dia seguinte. conta mais um milhão de estrelas e depois pode ir, eu disse baixinho. vai demorar uma eternidade, você respondeu. que seja, fica comigo. a noite toda? todinha. aqui, no degrau da varanda? aqui, sob o meu lençol, no tapete da sala, em qualquer lugar. mas e as estrelas? a gente inventa. e o meu emprego? prometo que te acordo. e se eu quiser voltar? você volta. e se eu não quiser ir embora? você fica. fico? fica pra sempre. ❞
Mon cher

Me engoliu como âncora no rio/ me deixou sem ar pensando saber me amar/ so havia tua voz no fundo daqueles lençois/ me ouvia gemendo por asfixiamento demasido de teu oxigênio/ ali fui falecendo/ teu cigarro estava se acendendo das minhas cinzas/ passando entre teus dentes queimado feito lava quente/ quantos estragos/ fui teu tabaco/ porém será meu eterno trago/ nosso tango rimava trágico até nossas almas se perderem na cama

Amor com Vinho.

❝ Ela trouxe palavras bonitas e alguns cigarros. Trouxe também aquele sorriso de canto e contou algumas histórias engraçadas. Rimos tanto, tanto, tanto, entretanto ela pediu para que eu esboçasse um gesto de entendimento: eu não conseguia entender uma palavra sequer. Ela então apagou seu último cigarro com a naturalidade de quem está acostumada a enterrar os primeiros amores. Rasgou os meus contos ainda não escritos e escreveu no espelho, com a delicadeza de uma mão trêmula, “eu te amo tanto que prefiro não te estragar. Adeus”. Depois de rir e vir tantas vezes pelo meu mundo, desapareceu levando os silêncios, as cinzas, os contos e esse coração aprendiz que, de tanto esperar, desaprendeu a ter paciência. ❞

Oh, Henry, não sei o que se passa comigo. Estou tão exultante. Estou quase louca, a trabalhar, a amar-te, a escrever e a pensar em ti, a tocar os teus discos, a dançar no quarto quando os meus olhos se cansam. Deste-me tais alegrias que não importa o que acontece a seguir… Estou pronta para morrer… E pronta para amar-te toda a minha vida! 

Je t’aime. 

Anais Nin.

desculpe-me vento, eu estou tão desatento.

Nota trinta e seis

Dizem que a dor, em poesia, é bonita. Que ferida, em poesia, é flor. Eu vejo, com os olhos úmidos, o mundo em um borrão. O só, sozinho, solidão. Quem disse que a dor, em poesia, é bonita, não conhece o estalo que causa no peito, a vista marejada e o embaço. E a ferida só é flor, quando arrancada do chão.

❝ A metade dos dois quartos do tempo, deixo minhas janelas abertas. Fica meu quarto, minha sala, cozinha, banheiro e lavanderia interna, com todas as janelas, amadeiradas, abertas, escancaradas para o vento entrar. Inevitavelmente, ele entra, o vento, e balança as persianas enquanto ondula a superfície de meu chá de camomila. Eu não me importo com o jeito requintado de segurar a bebida, que aparentemente é inapropriada para esse tipo de líquido quente. Não tem a profundidade suficiente. Nem levanto o dedinho mindinho para não parecer elegantíssimo. Sou só o esfarrapado que vive de pequenos contos, crônicas e histórias voltas para poetizar vidas alheias, em mundos de solo vermelho que não são ficcionais. Gente de carne e osso, de sonhos e clichês, gente que só escreve melhor falando das coisas. Velhas e copiosas tradições transmitidas pela língua nativa. Não estávamos falando nisso. Falávamos da minhas janelas dando para o céu. Vejo só nuvens e não moro no vigésimo oitavo andas. A coisa é diferente. O céu é uma abstração subconsciente do estado de espírito de um escritor de windows. O vento que entra e leva o ar que sai. Sai dos pulmões que rangem a cada pico criativo. Sai das narinas suadas. Circula o ar por entre os papéis que conflituam enquanto compõem sozinhos. Perpassa o ar enquanto o autor escreve esse microtexto tentando sustentar-se, viver da literatura. Poesia vale algum dinheiro, quem diria. Melhor escrever que cometer o delito do furto, roubar, matar. Pensando, quem sabe, em mais abstrações, muitas eróticas. Enquanto as persianas balançam, vejo a personagem morena descendo as ruas do interior e, com seu olhar carismático, tencionando um jovem hormonizado pela idade do nascimento dos primeiros pelos. O vento desenha na parede as cenas do poema que se escreve desde a vinda de Cabral a terras dominadas por tupiniquins criativos, decididos e de crenças metafísicas. A metade do tempo, as janelas abertas. A outra metade, o poeta dorme. ❞