Esfomeado.
Arrumei a cadeira onde sento, endireitei a coluna e agora tenho uma postura saudável. Meus olhos estão ardidos e causariam espanto se mais alguém além de mim pudesse vê-los. Passei a noite em claro e decidi lhe escrever. Estou me dando conta, nesse exato momento, de que sempre escrevi sobre você, mas nunca para você. E não estou dizendo que isso é uma reclamação sua, apesar de ser. O que acontece, afinal, é que não posso. Quando me ponho determinada a pensar em ti, e sobre ti escrevo, as coisas fluem. Porque você em sua natureza, é natural. As palavras dançam e me deixam escolhe-las. Os sentidos não se trocam e eu sempre sei exatamente o que dizer. Mas para você não há condições. Eu me embaralho, me perco, e acabo por me esconder diante de toda minha vergonha. Não me entenda mal, eu não tenho vergonha de você. O que me encabula muito, na verdade, é teu olhar me queimando. Teu riso contido e tuas bochechas coradas ao ler o que sinto. Porque eu tenho dificuldades em falar, mas quando escrevo posso fazer soar como quero. Eu não consigo simplesmente passar pra cabeça tudo aquilo o que tenho no coração. Não caberia, e não cabe a você ler. Porque escrever é muito fácil, mas o meu desejo é o de te fazer ver. Agora peço desculpas porque tenho sono. Não consigo lembrar o que disse na primeira linha desse texto, e nem mesmo lembrarei o que direi na última. Minhas pálpebras pesam agora. Talvez outro dia, querido. Talvez outro dia.
Casebre. 

Há um elo perdido em cada um de nós, alojado no estômago, correndo em nossas artérias, remexendo nossas hipóteses sobre a felicidade. Talvez esse elo seja a nossa própria existência à procura de algum sentido, talvez seja esse vazio abrindo espaço e se moldando ao formato correto. E no decorrer da vida, podemos achar a conexão certa, o encaixe perfeito, a palavra contida, esquecida. Pode ser aquela notícia do jornal de quinta, o disgnóstico da sua esquizofrenia, a visão do alto da praia de Trancoso, a pele molhada do seu corpo (no meu), a paranoia de Roberto Piva, a melodia de Jake, a cor do seu vestido, o vinho, a ferida sem cura, o ajuste de contas, o suco sobre o balcão, as janelas abertas, o céu encurvado sobre o planeta. Olhe para o espelho, reconheça o seu próprio elo perdido, alimente-o daquilo que te faz bem. Reencontre o fio da meada.
Elisa Bartlett.

Tem que ser muito mulher para fazer o que ela faz. Sorrir como ela sorri, organizar todos os dilemas e ainda ter tempo para sonhar como ela sonha. Tem que ser muito mulher para trazer a tristeza que ela carrega, para ter os olhos lindos que ela tem. Há de ser muito mulher para romper todos os olhares tortos, para suprir todo o amor que lhe falta, bem como ela, só ela, faz. Há de ser muito mulher para andar todos os quilômetros de vida que ela já andou, viver tudo e mais um pouco do que ela viveu. Muito, mas tem que ser muito mulher, mulher demais para doer o tanto que ela já doeu, para lamber a ferida como ela lambe e suportar com sobriedade tudo o que, com ela, a vida faz.
Docismo.

Você me fez bonita. Assim, como quem não quer nada, sem o menor esforço. Eu fui forte por você, aceitei cada condição, porque não ter você seria o mesmo que deixar um grande espaço em branco em todas as páginas, seria terminar esse texto sem ponto final, espaço ou qualquer explicação gramatical, uma heresia ao meu peito que te chama assim que a porta se fecha com você do outro lado. Você me fez exagero, é preciso dizer, exclamar, exceder e repetir cada ato porque nada nunca será o suficiente. Tudo sempre me parece a primeira vez. Você me fez. Assim, como se houvesse um punhado de nada que você esbarrou ao acaso e moldou. Me fez porque sequer recordo o tempo anterior à sua chegada, ou aquilo que sucede ao redor na sua ausência, tudo é nulo e descartável. Estamos em constante início, não há rotina além do calendário, não há sequer um momento com o pensamento além dos seus olhos. Não existem mundos além de você.

G.

Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de tão estranhas qualidades? Faça chover sobre ele todos os tipos de bênçãos terrenas; submerja-o em felicidade até acima da cabeça, de modo que só pequenas bolhas apareçam na superfície dessa felicidade, como se em água; dê a ele uma prosperidade econômica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, exceto dormir, comer pão-de-ló e preocupar-se com a continuação da história mundial — mesmo assim, por pura ingratidão, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum ato repulsivo. Ele até mesmo arriscará perder o seu pão-de-ló e desejará intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antieconômico absurdo, simplesmente a fim de injetar o seu fantástico e pernicioso elemento no âmago de toda essa racionalidade positiva.
Fiodor Dostoievski - O Absurdo do Cúmulo da Felicidade.

Você fez uma carnificina no meu interior. Matou meu coração, perfurou meus pulmões, cortou meu fígado, rasgou minha alma. Você me destroçou.

Quando a gente espera cair, Ele segura. Quando o fracasso bate á porta, Ele consola. Quando o coração é ferido, Ele cura. Quando a vida fica pesada, os sentimentos são pisoteados e o que parecia certo era ilusão, Ele não abandona. E tudo cicatriza devagar. E a vida incolor volta a ser bonita aos poucos. Quando tudo parece perdido, Ele vem. Diz que há esperança. A dor grita que não, tenta nos convencer a desistir, diz que isso nunca vai passar. Parece até rir da gente. “Se machucou de novo? É sempre assim”. Mas Deus sussurra: Há descanso. Há esperança. Mesmo como árvore cortada, Ele vem regar. Com o tempo, ali do chão, a gente floresce de novo. Mais firme, mais forte.
A menina e o violão.

O essencial é invisível aos olhos
mas palpável ao coração.

R